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| TERRITÓRIO: LICENCIAMENTO AMBIENTAL NO RIO MADEIRA |
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Usinas no Madeira: licenciando o uso privado e transnacional do território Por Luis Fernando Novoa Garzon*
A decisão sobre a realização das Usinas do Madeira vai muito além do chamado planejamento energético nacional. O abastecimento energético é apenas a forma de legitimar a ignição de um ciclo de grandes projetos de infra-estrutura que submete a Amazônia a uma nova ordem territorial, vinculada às instituições financeiras internacionais e aos setores primário-exportadores.O projeto das Usinas no Rio Madeira não tem respaldo de estudos de Bacia, que deveriam envolver, obrigatoriamente, a Bolívia e o Peru. O Governo omite que essas usinas fazem parte de um projeto de um corredor hidroviário e rodoviário que, em forma de cunha, interconecta a Amazônia Ocidental aos portos do Pacífico. Trata-se do “Eixo Peru-Brasil-Bolívia”, da Iniciativa de Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), concebida pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como um pacote de empreendimentos viários e energéticos e de aparatos (des)regulatórios, para estabelecer uma nova forma de gestão do território sul-americano, e da Amazônia em particular.O licenciamento “por partes” do Complexo deixa de fora até mesmo a Linha de Transmissão e a hidrovia, o que revela a intenção do Governo brasileiro de ocultar os efeitos conjuntos e transfronteiriços do projeto. Na prática isso quer dizer que se está transferindo previamente poder regulamentador, sobre uma região estratégica para a articulação e interligação do continente, para conglomerados privados e transnacionais. Incorporação capitalista aceleradaOs estudos ambientais elaborados pelo Consórcio Furnas/Odebrecht, em seu próprio interesse, escondem e mascaram as reais consequências dos dois barramentos propostos para o maior afluente do Rio Amazonas. Em primeiro lugar, trata-se da desestruturação de inúmeras comunidades ribeirinhas, camponesas e indígenas, brasileiras e bolivianas, com a expulsão direta de mais de 3 mil famílias de seus espaços de moradia, trabalho e identidade. É o “preço do desenvolvimento” diz o senso comum a recobrir o senso muito particular dos conglomerados aos quais o “desenvolvimento” sempre serve.Que desenvolvimento é esse que se obtém com a supressão das potencialidades e dos protagonismos locais? Que país se faz com a negação dos povos que lhe dão originalidade e sentido? Para as comunidades tradicionais seu território é memória coletiva, corpo e carne de muitos, e ninguém pode querer redesenhá-lo sem seu consentimento e iniciativa, muito menos em função de interesses particulares travestidos como se fossem “interesses do país”. Os verdadeiros sujeitos e filhos da terra vistos como os próximos a despejar, “entraves” no meio do caminho. Mais um caminho feito de corpos para que passem as mercadorias por cima? Aquilo que é visto apenas como eixo viário e jazida energética, é uma bacia complexa que guarda incalculável diversidade sociocultural. Diversidade andino-amazônica em uma bacia sedimentar, em formação a olhos vistos, viva em todos os sentidos. Os propositores do projeto disfarçam e tentar fazer crer que os “impactos” serão localizados, passíveis de monitoramento e mitigação. A retenção das águas de um rio com tamanha vazão de água e de partículas sólidas para aproveitamento energético modifica todo o regime hidrológico, e os perfis biótico e sócio-econômico da bacia.A negligência do Consórcio Furnas/Odebrecht foi tanta que foi necessário que o Ministério de Minas e Energia apelasse ao Banco Mundial para que fosse contratado um consultor internacional para suprir a falta de projeções nos estudos sobre o assoreamento nos reservatórios. O fato do aporte, limitado e de última hora, do consultor internacional Sultan Alam ter servido de salvo conduto para o licenciamento prévio das Usinas, demonstra a precariedade do conjunto dos estudos apresentados. Dessa forma as populações residentes a montante e a jusante das eventuais Usinas estão à mercê de níveis imprevisíveis de alagamento e de perda de fertilização das várzeas.O comprometimento da biodiversidade regional, especialmente a relativa aos peixes, ameaça a atividade pesqueira em toda a bacia do Madeira, que é fonte de renda de mais de 15 mil famílias. A dinâmica migratória das principais espécies seja na subida para procriação seja na deriva de ovos e juvenis será afetada irreversivelmente, a despeito do sistema de transposição de peixes que for criado ou da abertura periódica dos vertedouros que for programada. A multiplicação dos vetores de malária e dos fatores coadjuvantes para a contaminação por mercúrio ocorre em um contexto já extremamente preocupante, sem que se antecipem medidas profiláticas e de aparelhamento dos órgãos públicos responsáveis pelo seu controle na região.Uma ainda mais desordenada expansão urbana e demográfica na região no entorno das construções já está ocorrendo sem a garantia de uma correspondente ampliação da oferta de serviços públicos. O Município de Porto Velho será convertido transitoriamente em “canteiro de obras”, o que lhe custará seqüelas permanentes. Enquanto servir ao Projeto, será um apêndice das usinas, dispondo além da base física das obras, mão-de-obra barata para o pico das construções. Mas não existem instrumentos para o encadeamento dos investimentos na região e o surto de crescimento previsto servirá apenas para gerar estagnação e desemprego em escala ampliada após 2012.A construção das Usinas ao viabilizar o corredor interoceânico do Madeira intensificará a incorporação de áreas florestadas, incluindo unidades de conservação, reservas extrativistas e terras indígenas, pela pecuária, pela mineração e pelos monocultivos. Dessa forma seguiremos oferecendo, como país, uma espécie de subsídio verde ao capital monopolista. Nossos recursos naturais e nossa natureza continuam sendo utilizados como mecanismos de barateamento dos custos operacionais das grandes empresas, em troca de perdas irreversíveis para a população. Licença de encomenda e a socialização dos riscosA concessão de Licença Prévia ao projeto das Usinas no Rio Madeira, sem o devido dimensionamento e/ou previsão de seus reais efeitos, é mais uma tentativa de flexibilização de requisitos e direitos da população em nome de interesses privados de curto prazo. As condicionantes anexadas à Licença Prévia transferem salvaguardas e garantias prévias para a fase de instalação, o que caracteriza irregularidade e casuísmo no processo de licenciamento.O licenciamento de um Projeto com tantas omissões e renúncias de regulamentação pública e de controle social procura consolidar o desmonte do processo de licenciamento ambiental no país. Este megaprojeto serve antes de tudo para sinalizar uma porta aberta para investimentos estrangeiros diretos interessados em grandes projetos de infra-estrutura com grande poder de remodelação territorial. O rebaixamento de exigências sociais, ambientais, institucionais e econômicas seria uma prova da “abertura” e da “boa vontade” do país com os capitais. Para que continuem vindo, e mandando, livremente.A perda das proteções da população diante dos grandes projetos de infra-estrutura tornou-se condição prévia para que os mesmos sejam viabilizados do ponto de vista financeiro. É o risco de vida da população do Madeira pagando o risco dos investidores do Projeto do Complexo Madeira.O lobby do setor elétrico, associado ao senso comum, procura consolidar a visão de que a hidroeletricidade é uma fonte “limpa”. Na verdade, é preciso perguntar em qual escala e em que região se obtém a fonte. Mega-represas, como as querem fazer no Madeira, modificam totalmente o regime hidrológico, a qualidade da água, restringem a cadeia alimentar dos peixes, favorecem a malária e a contaminação por mercúrio. E por último, como algo que desloca milhares de pessoas, acaba com as culturas tradicionais e chega inclusive a desorganizar as cidades próximas, pode ser chamado de “limpo”?Na verdade a aprovação do Projeto das Usinas no Rio Madeira representa um precedente para o “aproveitamento total” do potencial hidroelétrico da Amazônia. Em nome da justificativa alegada é preciso que se avalie a própria necessidade de expansão da geração elétrica do país. Que tipo de expansão e para quem? No caso do Brasil, os setores exportadores de commodities é que demandam mais energia para ampliar sua escala de produção e de escoamento de matérias-primas para o mercado externo. É mais energia para aprofundar a reprimarização da economia brasileira ou mais energia para a dinamização do mercado interno com distribuição de renda e inovação?Existem saídas de curto prazo de menor impacto à disposição, como a repotenciação das usinas mais antigas e a aplicação de programas de eficiência energética, que ofertariam um adicional equivalente ao que produziria o Madeira, com um custo muito menor. A energia do Madeira é uma energia cara até mesmo do ponto de vista estritamente operacional, pois ela precisaria ser deslocada por milhares de quilômetros até chegar aos principais centros de consumo. Decididamente, não é o fornecimento energético que justifica a prioridade que essas usinas estão recebendo por parte do Governo e do setor privado. O uso oportunista do “apagão” tenta esconder um conjunto de omissões, incompetências e interesses obscuros em torno desse licenciamento.O último parecer técnico do IBAMA defendeu a inviabilidade do projeto por insuficiência de informações sobre os reais riscos e por falta de capacidade de resguardar os direitos da população na área de influência. A negação desse parecer custou uma intervenção branca no órgão e uma série de despachos que reabilitaram os estudos, setorizando os “impactos”. O início do licenciamento do Projeto do Complexo Madeira antecipa o licenciamento compulsório dos grandes projetos de “interesse nacional” defendido por Jerson Kelman, da ANEEL, em anteprojeto ao Congresso.Nem foi preciso aguardar outra legislação, bastou esgarçar ao limite as comprovações técnicas e os compromissos públicos requeridos no atual processo de licenciamento:
1) minimização das áreas de impacto direto e indireto com a exclusão do território Bolívia e das áreas a jusante;
2) anulação da necessidade prévia dos estudos de bacia;
3) segmentação do licenciamento do Projeto do Complexo Madeira de forma que as duas Usinas tornem, em um momento seguinte, a hidrovia e a linha de transmissão fato consumado;
4) estudos de impacto ambiental realizados com metodologias e critérios de certificação que minimizam e mascaram os danos;
5) definição arbitrária do Consórcio Furnas/Odebrecht dos próprios critérios de suficiência ou de insuficiência de estudos,
6) as condicionantes anexadas à licença procuram substituir o vazio de informação e diagnóstico com monitoramento, ou seja, os empreendedores terão autonomia para definir as próprios parâmetros da instalação.
PPI/PAC: privatização e liberalização em outro nívelO Projeto das Usinas no Madeira e o de transposição do São Francisco são peças-chave do PAC, programa que expressa o máximo que um Estado-nação desmontado ao longo de duas décadas de políticas neoliberais pode querer em termos de desenvolvimento. Ou seja, é o crescimento do que aí está, da desindustrialização ou, se preferirem, da especialização regressiva das cadeias produtivas do país. A recuperação do papel intervencionista do Estado se dá a favor dos grandes conglomerados. Basta ver quais setores se beneficiam diretamente com as obras listadas no PAC: o agronegócio, o setor eletrointensivo e as grandes cadeias de serviços de infra-estrutura.A seletividade na destinação de recursos e subsídios está sendo orientada pelo padrão pós-FMI: depois do estrangulamento geral da economia nacional, a oxigenação condicional e seletiva. Recupera-se capacidade de investimento para ampliar a escala das economias de enclave, reais e potenciais. O acréscimo de “produtividade” no Brasil significa redução de custos operacionais nas cadeias produtivas transnacionais. A premissa para a deslocalizaçao dos negócios não é a criação de novas habilidades e o intercambio justo delas, mas o rebaixamento dos custos e regulamentações.
Os setores de infra-estrutura financiados e planejados sob a ótica da nação reversa, funcionam como plataformas de oligopolização dos territórios. A oferta é feita nos termos de uma chantagem: o desenvolvimento possível depende da qualidade da interconexão do país/região com os mercados globais, requerendo uma infra-estrutura especializada, com marcos regulatórios adequados aos investimentos que vierem em sua esteira.Os Projetos Pilotos de Investimentos (PPIs), uma herança permanente do último acordo do país com o FMI, indicam a forma adequada de consolidar a participação privada em infra-estrutura propiciando “competitividade” e garantia de retorno financeiro, sem prejuízo do ajuste fiscal. Os PPI são matrizes lógicas dos grandes projetos de infra-estrutura do PAC e constituem uma forma ativa de indução da transnacionalização e da fragmentação da nação.
A gestão exemplar proposta para o setor de infra-estrutura requer enquadramento dos “riscos regulatórios” e o “monitoramento intensivo” da execução de projetos. O GE-PPI, Grupo Executivo composto pela Casa Civil e pelo Ministério do Planejamento, “vai permitir o monitoramento intensivo das ações integrantes do PPI identificando o estágio atual de execução, eventuais restrições e as providências necessárias” (relatório de situação/outubro de 2005).Os PPIs, estão no centro da lógica dos projetos do PAC, estabelecendo uma folga fiscal para investimentos em infra-estrutura sob a condição de serem voltados para exportação e para o retorno financeiro. Esses projetos, e o projeto do Complexo Madeira, em particular, são “negócios da China” para atrair investimentos estrangeiros. A posição do Ministério de Minas e Energia de limitar a participação das estatais no leilão do Madeira e dispor do BNDES para escorar os consórcios privados interessados nas obras deixa claro que estamos diante de mais um ato de sacrifício voluntário da nossa soberania potencial.
O acordo de exclusividade entre Furnas e Odebrecht e desta última com os fornecedores internacionais das turbinas de tipo bulbo com melhor certificação, representa prática restritiva de concorrência e uma fraude anunciada do próprio leilão, reproduzindo os mesmos vícios verificados no processo de licenciamento: parcialidade, favoritismo e abuso do poder econômico. A questão ambiental é mera cortina de fumaça, que esconde uma nebulosa operação de transferência de poder operativo e regulatório sobre nossos recursos, povos e territórios, para grandes empresas e bancos internacionais.O avanço desordenado da fronteira agrícola e agora da “fronteira elétrica” na região, sua urbanização caótica, a ausência do Estado em benefício da interferência desarticuladora de grupos econômicos privados na região, compõem um cenário de ponto final do país. A Amazônia reduzida a fonte energética, estoque de matérias-primas e eixo viário entre os dois oceanos, refletiria uma derrota histórica de nossos povos, do Brasil e da América do Sul, condenados previamente a um papel servil e neocolonial no mundo, sem centro de gravidade, sem destino próprio.
*Luís Fernando Novoa Garzon, sociólogo, membro da ATTAC e professor da Universidade Federal de Rondônia. Contato: l.novoa@uol.com.br
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