A CARCINOCULTURA AGONIZA O RIO POTENGUI

Desastre ambiental no Rio Potengi
Por Francisco Iglesias

 

O Rio Potengi é o rio dos poetas potiguares, cantado em verso e prosa aos quatro ventos dessa esquina do Brasil e pela sua permanência na memória e história do Rio Grande do Norte, e até do Brasil, pela sua beleza paisagística, encanta a todos que o conhecem mas não sabem da sua estória sofrida.

Ele banha vários municípios, sendo os mais importantes os de Natal, Macaíba e São Gonçalo. É flanqueado por extensos manguezais, muitas gamboas, sendo um estuário importante para a alimentação de muitas famílias que habitam suas margens e também de trabalho de centenas de pescadores e coletores de caranguejo.

Seus manguezais estão sendo sistematicamente destruídos, começando pela indústria salineira há mais de sessenta anos, que ocuparam seus mangues para produzir sal de excelente qualidade, não respeitando nem a Lei do Código Florestal de 1965 que protegeu integralmente as áreas de manguezais, instituindo o conceito de Área de Preservação Permanente – APP.

Seus mangues foram ocupados pelos salineiros que usavam a estratégia de entrar nos mangues e desmatar, deixando uma margem de 30 metros, que os tornava invisíveis para os que passassem, que não viriam o que estava acontecendo dentro do manguezal. Procedimento também adotado hodiernamente pelos carcinocultores para destruírem os manguezais, mas que não contavam com o aparecimento do Google Earth que simplesmente abriu a porta dos satélites que eram caríssimos para toda população, podendo assim qualquer pessoa monitorar com o olho do espaço o que acontece na superfície da Terra.

Os rios têm sido os receptáculos de todo lixo da humanidade, tudo que não presta é jogado no rio, ou nas ruas, onde a chuva conduz para os rios, e o Potengi não foge dessa situação. O maior poluidor hoje do Rio é a Companhia de Água e Abastecimento do Rio Grande do Norte-CAERN, que joga nele, in-natura, cerca de 18% de todo esgoto de Natal, e não tem feito nada para modificar esse panorama, apesar das pressões da sociedade civil nesse sentido e também do Ministério Público. Junto com esse esgoto são despejados o esgoto de praticamente toda cidade, coletado de fossas pela imunizadoras que não recebem e não tem nenhum tratamento, então o volume de esgoto é muito maior, assim como o esgoto dos municípios de Macaíba e São Gonçalo.

O rio já teve até CPI, mas não resolveu seu problema. Tem sido castigado por indústrias, como as de processamento de couro e as de refrigerantes.

E nos últimos 9 anos, os manguezais estão sendo continuamente destruídos e ocupados pela carcinocultura em todo estado do RN e o estuário do Rio Potengi não escapou desse sofrimento. Para se ter melhor idéia da explosão da carcinocultura, vejamos a evolução da exportação de camarões em volume financeiro: em 1998 o estado do RN exportava US$ 100 mil por ano de camarão e, em 2002, já exportava cerca de US$ de 100 milhões. Foi a nova corrida do ouro, engolindo e destruindo tudo no caminho.

Velhas salinas abandonadas nas margens do Potengi, e que estavam com o manguezal retomando seu espaço, foram ocupadas pela carcinocultura e ocuparam novos espaços, inclusive invadindo o espaço do rio, diminuindo a sua largura, estrangulando-o.

 

 

Tudo isso acontecendo e a sociedade civil lutando para preservar o Rio Potengi há cerca de 20 de anos, mas sem ter uma ressonância dessa luta na área governamental para preservação do Potengi.

Então, para aumentar o sofrimento e a degradação do Potengi, no final de julho, entre os dias 27 e 28, tivemos um grande desastre nele, junto ao bairro dos Guarapes em Natal, onde os pescadores, na madrugada, viram surgir uma mortandade absurda de peixes e crustáceos no rio, com um grande aumento de temperatura da água do rio e o aparecimento de uma espécie de maré vermelha, imediatamente os pescadores avisaram a Colônia de Pescadores de Macaíba, e, uma bióloga, Rosa Dantas, que estava fazendo um estudo no rio comunicou ao IBAMA e ao IDEMA – Instituto de Desenvolvimento e Meio Ambiente da SEMARH – Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Rio Grande do Norte.

 

Bióloga Rose Dantas
            Bióloga Rose Dantas


A perda estimada foi de cerca de 40 toneladas de peixe. As primeiras providências tomadas pelas autoridades foram recolher amostras da água na área do desastre nos primeiros dias após acontecer o desastre, proibiram a pesca, prejudicando diretamente 400 famílias de pescadores no seu sustento direto e no seu ganho comercial. Mas, antes de sair os laudos conclusivos dos resultados das análises das amostras de água recolhidas , o IDEMA indicou como culpada, a empresa Veríssimo, pois a mesma havia feito uma despesca na sua área de carcinocultura, de 12 hectares, gerando um resíduo imenso de matéria orgânica que pode ter provocado a ausência de oxigênio Potengi para sobrevivência dos peixes e ocasionado a morte dos mesmos,esquecendo que o rio vem sendo morto há muito tempo e os culpados são vários o maior e a omissão dos governos que nunca agiram para manter a vida do rio.

O IBAMA proibiu a pesca na área por um período de 30 dias, e com muita pressão dos pescadores, ficou de dar o auxílio financeiro nesse período, mas ainda sem saber direito as causas e sem ver se a piscosidade do rio tinha voltado ao normal. O Governo do estado distribuiu cestas básicas. O IDEMA tem afirmado que os peixes não estão contaminados e que poderia voltar a ser pescado, mas como medida preventida iria suspender a pesca por 6 meses sem esclarecer com ficará a situação dos pescadores e que benefícios os mesmos receberão, pois muitos já estão enfrentando uma situação crítica para sustento da família. Outro problema que surgiu com o desastre é a possibilidade dos peixes e crustáceos estarem contaminados por metais pesados e estão sendo consumidos pelos pescadores e por aqueles que consomem o peixe oriundo do Potengi.





          
 
 
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