NANOTECNOLOGIA, SOCIEDADE E IMPACTOS AMBIENTAIS

CIÊNCIA, TECNOLOGIA E JUSTIÇA AMBIENTAL
Por Maurício Kanno *


São os interesses empresariais que têm determinado o desenvolvimento da nanotecnologia em termos globais e nacionais, embora tudo isto seja feito com muito dinheiro público (no Brasil as pesquisas são realizadas quase integralmente com dinheiro público). O ritmo das pesquisas para a produção de novos materiais, partículas, processos e produtos nanotecnológicos vêm sendo desenvolvidos em ritmo de Fórmula 1, e não há, no Brasil, recursos para  as pesquisas relativas aos impactos sociais, ambientais e na saúde humana - nos EUA, por exemplo, quando há recursos, não passam de 3% do total aplicado pelos órgãos públicos de fomento. Portanto, é provável que os movimentos que lutam por justiça ambiental logo mais estejam se deparando com uma tecnologia que é tida como a quinta revolução industrial, capaz de introduzir no universo da produção novos materiais e/ou partículas (uma nova natureza?) que em decorrência serão consumidas/ colocadas no ecossistema planetário sem quaisquer estudos de impactos, de toxicologia e eco-toxicologia. Esta é a revolução invisível que está em marcha; o tamanho das partículas importa, pois um mesmo elemento químico, em tamanho micro e nano (um bilionésimo do metro) tem comportamentos (físicos, químicos, elétricos etc) distintos. Basta lembrar que o alumínio em tamanho nano é combustível.

E pode a nanotecnologia alterar este padrão de desenvolvimento a favor de uma sociedade igualitária e sustentável? Vejamos como a nanotecnologia vem sendo desenvolvida no Brasil. Sete idéias estão sempre presentes no processo de desenvolvimento de nanociência e nanotecnologia, em termos de objetivos a serem alcançados. São elas: 1) incrementar o desenvolvimento científico e tecnológico; 2) incrementar a competitividade internacional da ciência, tecnologia e inovação brasileira; 3) desenvolvimento regional equânime; 4) integrar a pesquisa realizada pelo setor público (universidades, centro de pesquisas), privado e empresas; 5) criação de empregos qualificados; 6) incrementar o nível tecnológico das empresas brasileiras e 7) incrementar o desenvolvimento econômico brasileiro. A síntese destes objetivos pode ser assim representada: as novas tecnologias levam às inovações; estas necessariamente implicam aumento da competitividade de empresas, indústrias, países, o que, por sua vez, assegura o crescimento econômico, que vai redundar em mais bem-estar social. Portanto, a visão hegemônica atribui uma causação linear entre as variáveis, configurando o chamado modelo linear de inovação:

 

novas tecnologias=>inovação=>mais competitividade=> mais crescimento=>mais qualidade de vida

 

Assim sendo, uma política de Ciência e Tecnologia e/ou de nanociência e nanotecnologia acaba por ser entendida como uma política social. Esta é a segunda concepção que permeia toda a visão do desenvolvimento em nanociência e nanotecnologia no Brasil presente nos diversos editais.

Por fim, cabe ressaltar uma terceira percepção embutida nestes editais, que se refere a que o desenvolvimento da nanotecnologia é algo inexorável, já dado, e que o Brasil não pode “perder o bonde da história”. Não há questionamentos a serem feitos a esta trajetória tecnológica, a priori admitida como a mais eficiente, encarada como one best way (o melhor caminho).

Em resumo, o desenvolvimento recente da nanociência e nanotecnologia no Brasil caracteriza-se por estar concebido nos seguintes termos: 1) exclusão de participação e controle social; 2) novas tecnologias, inovação, competitividade, crescimento econômico levam necessariamente a mais bem-estar social; 3) não se pode “perder o bonde da historia” da nanotecnologia e/ou questionar esta trajetória tecnológica.

Esta concepção de desenvolvimento de ciência e tecnologia, um dos pilares do atual modelo de desenvolvimento econômico brasileiro e mundial, conflitua com os princípios das lutas por justiça ambiental, defendidos pela Rede Brasileira de Justiça Ambiental – RBJA. Assim, de acordo com  o manifesto da RBJA, para mudar as atuais diretrizes das pesquisas em nanotecnologia no Brasil, é necessário priorizar as atividades de ensino e pesquisa comprometidas com os interesses da imensa maioria do povo, em particular as dirigidas à investigação de impactos sobre as populações vítimas de injustiça ambiental, a saúde e o meio ambiente, para garantir tanto o controle social das atividades de ciência e tecnologia, quanto a sua total independência frente a interesses empresariais e ao lucro privado.

Nesse sentido, a Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente (Renanosoma), constituída em outubro de 2004 por ocasião da realização do I Seminário Internacional Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente (I Seminanosoma) vem construindo, sob a coordenação do Prof. Dr. Paulo Martins, um espaço de reflexão que aborda as inter-relações entre as pesquisas em nanotecnologia e ciências humanas. A este respeito, alerta Martins, a relação entre os pesquisadores da área de Humanidades e de Exatas/Biológicas na discussão de nanotecnologia costuma ser conflitiva, na medida em que o entendimento dos pesquisadores das Exatas / Biológicas em geral é de que “não se pode questionar a nanotecnologia”, “não se pode perder o bonde da história”, “não se pode questionar a exclusão da participação e controle social no desenvolvimento da ciência e tecnologia no Brasil”. Assim, a visão de interdisciplinaridade frequentemente divulgada no que toca à nanotecnologia, não contempla as ciências humanas de fato, diz o coordenador. “Há muito o que se caminhar no sentido de uma ação coletiva de todas as ciências na produção de conhecimentos sobre nano”, e a Renanosoma busca contribuir neste aspecto.

Além do Seminanosoma e suas edições posteriores, a rede organizou seminários internacionais durante o Quinto e Sexto Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (RS), de 2005, e Caracas (Venezuela), de 2006. Ao todo, a Renanosoma já realizou 6 seminários internacionais, editou e lançou 4 livros, realizou diferentes projetos de pesquisas e articulou-se com diversas entidades de pesquisa, ensino, ONGs e representação dos trabalhadores.

Em outubro de 2004, a rede possuía 10 pesquisadores de 10 instituições; atualmente, compõe-se de 30 membros de 21 instituições. Um espelho desta rede é o grupo de pesquisa do CNPq “Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente”, cujos membros e detalhes podem ser conferidos no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil do CNPq: http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/ .

 

Engajamento Público

O projeto em andamento da rede Renanosoma é o “Engajamento Público em Nanotecnologia”, aprovado em edital do CNPq no fim de 2006, com início em 2007. Este projeto consiste basicamente em 3 bate-papos virtuais semanais entre pesquisadores de nanotecnologia e o público em geral interessado. Seu objetivo é informar e discutir nanotecnologia com o público não especialista.

No entanto, além destas discussões virtuais, outras atividades se agregam a este projeto, como o próprio lançamento do DVD “Nanotecnologia, o futuro é agora”, por meio do qual se espera difundir ainda mais a discussão sobre nanotecnologia em diversas instituições. A linguagem audiovisual é uma tendência deste projeto, pois a própria sala de bate-papo virtual já disponibiliza vídeos e imagens para serem exibidos enquanto ocorrem as discussões.

Outras atividades são a realização de inúmeras palestras sobre o tema nanotecnologia; aglutinação de voluntários e bolsistas junto ao projeto; e divulgação científica em geral do tema em diversos ambientes.


Renanosoma lança documentário em vídeo

“Nanotecnologia, O Futuro é Agora”. Este é um documentário lançado pela Rede de Pesquisas em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente (Renanosoma) em novembro de 2007, com a intenção de levar para o grande público a discussão sobre os impactos que as nanotecnologias terão sobre os trabalhadores, os consumidores e o meio ambiente. Até agora, já foram realizados 110 chats, disponíveis no endereço eletrônico da Renanosoma.

Constituído de depoimentos de especialistas no assunto e representantes de entidades relacionadas aos trabalhadores, imagens e animações ilustrativas, o documentário analisa a complexidade e o alcance das nanotecnologias, e as responsabilidades dos diversos atores envolvidos nesta nova "revolução tecnológica."

O vídeo é dividido em 7 partes: (1) O que é Nanotecnologia; (2) Aplicações das Nanotecnologias; (3) Impactos na Saúde e Meio Ambiente; (4) Ética e Nanotecnologia; (5) Principais Potenciais e Riscos; (6) Engajamento Público em Nanotecnologia; (7) O Futuro.

Produção e lançamento

Dirigido pelo produtor de vídeo Alexandre Quaresma, o DVD com o documentário foi lançado oficialmente em evento no Rio de Janeiro, na Fundacentro, órgão do Ministério do Trabalho e Emprego que realiza pesquisas e difusão de conhecimento no campo da segurança e medicina do trabalho. A Fundacentro iniciou, também em 2007, o projeto "Estudos preliminares dos impactos das nanotecnologias à saúde dos trabalhadores", em parceria com a Renanosoma.

Também no fim de novembro, o vídeo foi lançado na internet, disponibilizado no site Google Vídeos e no site da Renanosoma. Ao mesmo tempo em que exibia virtualmente o vídeo, o diretor do documentário, Quaresma, comentou-o com os interessados pela sala de bate-papo do Projeto Engajamento Público em Nanotecnologia da Renanosoma.

"Fala-se da 'quinta revolução tecnológica', e de uma nova plataforma tecnológica capaz de mudar a face da Terra e do homem, as cadeias produtivas, as relações de poder, mas pouco se fala sobre pesquisas de risco e prevenção contra os possíveis desarranjos dentro deste mesmo cenário," afirma Quaresma.

 

Como assistir ao vídeo

É possível assistir gratuitamente o documentário em vídeo por meio do site da Renanosoma: http://nanotecnologia.incubadora.fapesp.br/portal/video-nano-futuro


Também é possível assistir ou fazer o download das 7 partes do vídeo pelos seguintes links:

Parte 1: O que é Nanotecnologia
http://video.google.com/videoplay?docid=-4097638750276695378&hl=en

Parte 2: Aplicações das Nanotecnologias
http://video.google.com/videoplay?docid=4547697433510503216&hl=en

Parte 3: Nanotecnologia - Impactos na Saúde e Meio Ambiente
http://video.google.com/videoplay?docid=-702917680043331589&hl=en
Parte 4: Ética e Nanotecnologia
http://video.google.com/videoplay?docid=-2026479311976195532&hl=en
Parte 5: Nanotecnologia - Principais Potenciais e Riscos
http://video.google.com/videoplay?docid=-9199785578266157555&hl=en
Parte 6: Engajamento Público em Nanotecnologia
http://video.google.com/videoplay?docid=5700395739766566231&hl=en
Parte 7: Nanotecnologia - O Futuro
http://video.google.com/videoplay?docid=-1323868792810248645&hl=en


Caso prefira receber o DVD do vídeo pelo correio, é necessário depositar R$ 30,00 no Banco do Brasil, agência 3129-1, conta poupança 17.239-1, em nome de Tania. L. M. Q. de Moura, e enviar um e-mail para: a-quaresma@hotmail.com, com o comprovante de depósito e endereço de destino, que o DVD será prontamente remetido. Alexandre Quaresma é o diretor do vídeo, e outras dúvidas podem ser tratadas com ele.

 

Entrevistados no vídeo

Paulo Martins, coordenador da Renanosoma;

Guillermo Foladori, coordenador da Rede Latino Americana de Nanotecnologia e Sociedade;

Pryscila Daniely Marcato, doutoranda em Nanobiotecnologia na Unicamp;

Hugh Lacey, professor de Filosofia da Ciência no Swarthmore College, EUA e USP, no Brasil;

Maria del Cármen Hernández, do Centro de Pesquisa em Alimentação e Desenvolvimento do México;

Sebastião Neto, do grupo Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas (IIEP);

Silvia Moraes Barros, professora de Química e Toxicologia da USP;

Richard Dulley, pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA);

Enildo Iglesias, da Secretaria Latino Americana da União Internacional dos Trabalhadores da Alimentação e Agricultura (UITA);

Lilian Arruda Marques, assessora técnica do Dieese;

Fernando Cesar Álvares, secretário de Saúde da CUT;

Siderley Oliveira, presidente do Instituto Nacional de Saúde do Trabalhador; e

Gilberto Almazan, do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco.

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* Maurício Kanno é jornalista e bolsista CNPq pelo Projeto Engajamento Público em Nanotecnologia: http://nanotecnologia.incubadora.fapesp.br

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