Crise ambiental, crise de paradigmas * Po Jean Pierre Leroy **
Nesse curto espaço, gostaria de mencionar dois fatores que contribuem para a profunda e irreversível crise ambiental com a qual a humanidade se defronta, e que, por isso mesmo, podem inspirar formas de enfrentamento da crise. “Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai...“ sobre os peixes, as aves, os animais e as plantas. O livro do Gênesis indicava o caminho que Descartes, mais de mil e setecentos anos depois, repisaria. Para ele, somos “mestres e possuidores da natureza”. Pela cultura, pela ciência e pela vida urbana contemporânea nos afastamos profundamente da natureza. Não nos vemos como mergulhados no meio ambiente, mas exteriores a ele. Esse profundo divórcio não trouxe conseqüências drásticas sobre o meio ambiente e sobre a humanidade, senão localmente, durante milênios.
O segundo fator, propiciado justamente pela afirmação filosófica da nossa superioridade, é representado pelo florescimento do capitalismo mercantil e industrial, associado a sucessivas e progressivamente aceleradas invenções, a começar pela máquina a vapor. Saúdam-se sucessivas “revoluções” tecnológicas. A última seria a do conhecimento, base de um capitalismo cujo valor agregado se apóia sobre o imaterial. O primeiro problema é que se remunera mais o conhecimento que permitiu o computador ou o celular de última geração do que a máquina em si, mas essa continua existindo com seus compostos de petróleo e minerais e, embutidas nela, água e energia. O segundo é que a obsolescência dos produtos que os torna descartáveis faz parte hoje das concepções de produção e de mercado. Novos carros e novos modelos chegam ao mercado num tempo cada vez mais curto e lá vão mais recursos naturais, mais lixo e contaminação.
Será que o infortúnio do mundo fará a fortuna do Brasil? O nosso crescimento hoje não fará nossa desgraça amanhã? O mundo (em particular os países industrializados) necessita dos nossos minerais, a começar pela bauxita e pelo ferro. Produzimos para ele aço, alumínio, celulosa, carvão vegetal, mas, sobretudo, através desses produtos, lhe fornecemos energia, água e solo, que lhe fazem falta, limitando assim, junto com leis mais estritas e o custo da mão de obra, a sua expansão industrial.
A Alcoa começa a extrair bauxita em Juruti, no Baixo Amazonas. Ela quer abrir uma nova fábrica de alumínio, mas para isso requer energia. Sem problema: o ministro da energia já disse que a hidroelétrica de Belo Monte é um projeto irreversível. O lago que seria formado pela barragem diminuiu de tamanho, mas a vazão durante o verão será muito pouca, sem contar que não foram levados em conta o aumento do desmatamento das margens dos tributários e das nascentes do Xingu e as mudanças climáticas. Quem vai bancar o custo da incerteza da viabilidade econômica? Quem acredita que não haverá outras barragens construídas ao longo da bacia no futuro?
Há países que proíbem a instalação de indústrias contaminantes nas suas baias. Baias da Guanabara, de Sepetiba, de São Marcos, em São Luis do Maranhão e outras acolhem sem reserva pólos petroquímicos, fábricas de aço e de alumínio e amanhã usinas termoelétricas. É mais barato e mais perto dos portos. O que pesa a população e a qualidade de vida frente a isso?
Voltemo-nos para os agrocombustíveis e a agropecuária. A permanência do latifúndio, mesmo que reciclado na figura da grande empresa rural, e a arrogância dos representantes políticos dos grandes produtores rurais não podem fazer esquecer que não é o produtor que define os rumos da agricultura e que lucra mais com a sua produção. A atividade produtiva perdeu faz tempo sua centralidade em proveito das grandes corporações industriais e comerciais a montante e a jusante da produção na área de insumos químicos, máquinas, sementes, beneficiamento e comercialização da produção. Elas também se beneficiam da destruição do cerrado e da floresta amazônica. Nem se pode dizer, como o governador do Mato Grosso, que a produção de alimentos justifica a destruição de árvores, pois especulação sobre os alimentos e milho americano para etanol comandam boa parte da suposta escassez e o encarecimento dos alimentos.
Os agrocombustíveis representam um paradoxo. Ditos renováveis, eles permitem satisfazer a boa consciência. Reduziriam as emissões de CO², mas contribuem para manter a mesma matriz de transporte individual e de mercadorias. Satisfazem a boa consciência, mas permitem que o sistema de produção industrial aludido acima continue intato. Dificilmente essa produção escapará da lógica destrutiva. Vale assinalar que a preservação da floresta amazônica seria, segundo cientistas, uma contribuição muito mais importante para o clima do que trocar gasolina e fuel por biocombustível.
Se o problema está na nossa relação com a natureza e no modelo de produção e de consumo capitalista (o produtivismo soviético não diferia muito nesse sentido), a solução é mudar os paradigmas filosóficos e econômicos. Mas uma revolução das mentalidades e das sociedades não se decreta. O acompanhamento realista da destruição do território brasileiro e da diminuição gradativa da qualidade de vida (para não falar de populações rurais e tradicionais que desaparecem do mapa por obra do progresso) levariam ao pessimismo se não fosse a efervescência atual. Todos nós hoje, fora os cínicos, somos ambientalistas, queiramos ou não. Se cada um começa a sentir de perto os impactos na sua vida da crise ambiental, é também na sua vida, no chão, localmente, que pode iniciar novas maneiras de viver, de se relacionar com o meio ambiente e de cuidar da oiko-nomia, da economia da nossa casa, o planeta.
--------------------- * Este artigo foi publicado sob o título O planeta começa na nossa casa. In : Caros Amigos. Especial Meio Ambiente. Ano XII, número 43, Junho de 2008. ** Jean Pierre Leroy, assessor da Fase-Solidariedade e Educação